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Hematologia

Anemia: quando os sintomas pedem atenção especializada

Janeiro 2026 5 min de leituraDra. Daiane Rech de Moraes

Você se sente cansada mesmo depois de dormir bem. Sobe um lance de escada e fica sem ar. Olha no espelho e percebe que está pálida. São sinais que muita gente ignora por semanas — ou meses — antes de procurar ajuda. Esses sintomas podem indicar anemia, uma condição que afeta mais de 1,6 bilhão de pessoas no mundo e que, quando tratada corretamente, tem prognóstico excelente. O problema é quando ela passa despercebida ou é mal investigada.

O que acontece no corpo quando há anemia

A anemia ocorre quando o sangue não consegue transportar oxigênio suficiente para os tecidos do organismo. Isso acontece por dois motivos principais: ou há poucos eritrócitos (glóbulos vermelhos) circulando, ou a quantidade dehemoglobina — a proteína dentro dessas células que carrega o oxigênio — está abaixo do ideal.

Imagine que o sistema circulatório é uma rede de estradas e os glóbulos vermelhos são os caminhões de entrega. Quando há poucos caminhões, ou quando eles estão vazios, os tecidos ficam sem o combustível de que precisam. O coração tenta compensar batendo mais rápido. O cérebro, mal oxigenado, perde o foco. Os músculos ficam fracos. O corpo inteiro sente.

Sintomas que merecem atenção

  • Cansaço desproporcional ao esforço, mesmo após repouso adequado
  • Palidez na pele, nas gengivas, nas pálpebras e nas palmas das mãos
  • Falta de ar em atividades que antes não causavam desconforto
  • Palpitações ou sensação de coração acelerado sem motivo aparente
  • Dores de cabeça frequentes, especialmente pela manhã
  • Dificuldade de concentração e raciocínio mais lento
  • Queda de cabelo, unhas quebradiças e língua dolorida (sinais típicos de deficiência de ferro)
  • Formigamento nas mãos e nos pés (pode indicar deficiência de vitamina B12)
  • Icterícia leve — coloração amarelada na pele ou nos olhos (nas anemias hemolíticas)

Os tipos mais comuns de anemia

Nem toda anemia é igual. O tratamento depende inteiramente da causa — e identificar essa causa é o trabalho do hematologista. Os tipos mais frequentes são:

  • Anemia ferropriva: a mais comum no mundo, causada por falta de ferro. Aparece em mulheres com sangramento menstrual intenso, vegetarianos, gestantes e pessoas com má absorção intestinal. O ferro baixo prejudica a produção de hemoglobina.
  • Anemia megaloblástica: causada por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico. Os glóbulos vermelhos ficam grandes demais e não funcionam direito. Pode ter origem alimentar ou em doenças que afetam a absorção intestinal.
  • Anemia das doenças crônicas: associada a inflamações prolongadas, infecções, doenças autoimunes ou câncer. O organismo inflama e retém o ferro, impedindo sua utilização normal.
  • Anemias hemolíticas: os glóbulos vermelhos são destruídos mais rápido do que a medula consegue repor. Podem ter origem autoimune, medicamentosa ou hereditária.
  • Anemia falciforme: doença genética em que os glóbulos vermelhos assumem formato de foice, obstruem vasos e causam crises de dor. É a doença hereditária mais prevalente no Brasil.
  • Talassemias: grupo de doenças hereditárias que afetam a produção de hemoglobina. A gravidade varia muito — de formas leves, detectadas só no laboratório, até formas graves que exigem transfusões regulares.

Quando procurar um hematologista

O clínico geral ou ginecologista resolve muitos casos de anemia simples. Mas algumas situações pedem avaliação especializada:

  • Anemia grave (hemoglobina abaixo de 8 g/dL) ou de causa não identificada
  • Ausência de resposta após suplementação correta por 3 meses ou mais
  • Anemia acompanhada de alterações em outros componentes do hemograma — leucócitos ou plaquetas fora do padrão
  • Suspeita de doença hereditária, como falciforme ou talassemia
  • Histórico familiar de doenças hematológicas
  • Anemia que volta a aparecer depois de tratada, sem motivo aparente
  • Presença de icterícia, baço aumentado ou sintomas que vão além do cansaço habitual

Como o diagnóstico é conduzido

O ponto de partida é o hemograma completo. Mas um hemograma bem lido vai muito além dos valores de referência impressos no laudo. O hematologista analisa parâmetros que muitas vezes passam despercebidos:

O VCM (Volume Corpuscular Médio) informa o tamanho dos glóbulos vermelhos. Células pequenas sugerem deficiência de ferro ou talassemia. Células grandes apontam para falta de B12 ou folato. O RDW (Red Cell Distribution Width) mede a variação no tamanho dessas células — quando está elevado, indica que o organismo está produzindo eritrócitos de tamanhos diferentes, o que tem significado clínico importante. A ferritina revela o estoque de ferro do corpo: um paciente pode ter hemoglobina ainda normal, mas ferritina baixíssima — sinal de que a anemia está a caminho. Por fim, a morfologia em lâmina, onde o especialista examina as células ao microscópio, pode revelar formatos anormais que nenhum número isolado consegue mostrar. É nesse olhar treinado que muitos diagnósticos se fazem.

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