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Hematologia

Ferritina elevada: causas e quando investigar

Fevereiro 2026 6 min de leituraDra. Daiane Rech de Moraes

A ferritina é a principal proteína de armazenamento de ferro no organismo. Quando seu valor está elevado no exame de sangue, muitos pacientes ficam preocupados — e com razão, pois a hiperferritinemia pode indicar desde condições benignas e tratáveis até doenças que exigem investigação especializada. Entender a causa é o passo fundamental.

Por que o ferro se acumula?

O organismo humano não possui mecanismos fisiológicos eficientes para eliminar o excesso de ferro. Por isso, a sobrecarga ocorre principalmente por absorção excessiva de ferro da dieta ou por aporte externo — uso de ferro medicinal parenteral ou transfusões repetidas de concentrado de hemácias. Quando o ferro se acumula em órgãos como fígado, coração e pâncreas, pode causar danos progressivos e irreversíveis.

Principais causas de ferritina elevada

  • Hiperferritinemia reacional: a causa mais comum. Inflamações ou infecções agudas ou crônicas, etilismo, lesão hepática aguda, neoplasias e síndrome hemofagocítica elevam a ferritina como resposta inflamatória, sem necessariamente indicar sobrecarga real de ferro.
  • Hemocromatose hereditária: condição genética em que há absorção excessiva e contínua de ferro pelos enterócitos duodenais, geralmente por deficiência de hepcidina. O gene mais frequentemente associado é o HFE.
  • Causa iatrogênica: transfusões repetidas de concentrado de hemácias e uso excessivo de ferro parenteral.
  • Associada a distúrbios da eritropoese: talassemia beta intermediária, deficiência de piruvato-quinase, anemias sideroblásticas hereditárias, anemias diseritropoéticas congênitas e síndromes mielodisplásicas — especialmente os subtipos com sideroblastos em anel.
  • Associada a outros distúrbios metabólicos: porfiria cutânea tardia e síndrome da sobrecarga de ferro dismetabólica.
  • Causas raras: doença da ferroportina, síndrome da hiperferritinemia-catarata e aceruloplasminemia.

Como o hematologista investiga

A ferritina isolada não é suficiente para definir a causa da hiperferritinemia. Recomenda-se sempre associá-la à saturação de transferrina (ST), realizada preferencialmente em jejum. A interpretação conjunta orienta a investigação:

  • Ferritina elevada + ST acima de 45%: recomenda-se investigação genética para hemocromatose hereditária.
  • Ferritina elevada + ST normal ou reduzida: devem ser investigadas causas de hiperferritinemia reacional — inflamação, doença hepática, etilismo, neoplasia.
  • Quando necessário, a ressonância magnética nuclear (RNM) do fígado e do coração quantifica a sobrecarga de ferro nos órgãos e orienta a conduta terapêutica.

O diagnóstico preciso evita tanto o supertratamento (quelação ou flebotomia desnecessárias) quanto o subtratamento de condições que, sem cuidado, evoluem para cirrose, diabetes e insuficiência cardíaca.

Referência: Zago MA, Pasquini R, Spector N, Saad STO, Calado R, Rocha V, editores. Tratado de hematologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2025.

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