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Onco-hematologia

Leucemia: como é feito o diagnóstico e qual o papel do hematologista

Fevereiro 2026 7 min de leituraDra. Daiane Rech de Moraes

Receber um diagnóstico de leucemia é impactante. A palavra assusta. Mas o que a medicina aprendeu nas últimas décadas é que o prognóstico depende muito — e às vezes decisivamente — do momento em que o diagnóstico é feito. Leucemias detectadas cedo respondem melhor ao tratamento. Algumas, antes consideradas intratáveis, hoje têm remissão completa em grande parte dos pacientes. O hematologista é o médico que conduz esse processo, do primeiro hemograma alterado até o acompanhamento após o tratamento.

O que é leucemia e por que ela acontece

A leucemia é um câncer que se origina na medula óssea — o tecido esponjoso dentro dos ossos onde as células do sangue são produzidas. Em algum momento, uma célula sofre uma mutação genética e começa a se multiplicar de forma descontrolada, sem maturar corretamente. Essas células anormais vão ocupando o espaço da medula e prejudicando a produção das células normais: glóbulos vermelhos, glóbulos brancos saudáveis e plaquetas.

O resultado prático é que o organismo fica sem conseguir transportar oxigênio direito, combater infecções ou coagular o sangue de forma adequada. São esses desequilíbrios que aparecem nos sintomas e nos exames.

Os quatro tipos principais

  • Leucemia Mieloide Aguda (LMA): progressão rápida, afeta células da linhagem mieloide. É o tipo mais comum em adultos. Os sintomas surgem em dias ou semanas — anemia intensa, infecções graves, sangramentos. Exige tratamento imediato.
  • Leucemia Linfoide Aguda (LLA): também de progressão rápida, mas afeta os linfócitos. É a leucemia mais comum em crianças, com altas taxas de cura quando tratada precocemente. Em adultos, o prognóstico varia conforme características moleculares.
  • Leucemia Mieloide Crônica (LMC): evolução mais lenta, associada a uma mutação específica chamada cromossomo Filadélfia. Muitos pacientes ficam anos sem sintomas. Hoje é tratada com comprimidos de terapia-alvo que controlam a doença de forma eficaz em grande parte dos casos.
  • Leucemia Linfoide Crônica (LLC): a leucemia mais frequente em adultos acima de 60 anos. Progressão lenta, e muitos pacientes convivem com a doença por anos sem precisar de tratamento imediato — apenas monitoramento regular.

Sinais de alerta — o que observar

  • Cansaço intenso e palidez que não melhoram com descanso
  • Infecções repetidas ou que demoram muito para melhorar
  • Sangramentos fáceis — gengivas, nariz, hematomas sem trauma
  • Febre persistente sem causa infecciosa identificada
  • Perda de peso involuntária em semanas ou poucos meses
  • Sudorese noturna intensa, mesmo em noites frias
  • Gânglios aumentados no pescoço, axila ou virilha, sem dor
  • Sensação de peso ou desconforto no abdômen superior esquerdo (baço aumentado)
  • Dores nos ossos, especialmente em crianças

O caminho do diagnóstico

Tudo começa com o hemograma. Um número de leucócitos muito alto ou muito baixo, combinado com anemia e plaquetopenia, acende o alerta. A partir daí, o hematologista conduz uma investigação em etapas:

O mielograma é a punção da medula óssea — geralmente no osso do quadril — para coletar e analisar as células produzidas ali. É o exame que confirma se há leucemia e qual o tipo. A imunofenotipagem identifica com precisão a linhagem celular afetada e o grau de maturação das células anormais — informação que define o protocolo de tratamento. Já a citogenética e biologia molecular buscam alterações cromossômicas e mutações específicas, como o cromossomo Filadélfia na LMC ou mutações no gene FLT3 na LMA. Esses resultados não são apenas diagnósticos — eles guiam a escolha dos medicamentos mais eficazes para aquele paciente específico.

Tratamentos disponíveis hoje

A hematologia avançou muito. As opções de tratamento hoje vão muito além da quimioterapia tradicional:

  • Quimioterapia: ainda é a base do tratamento nas leucemias agudas, com protocolos bem estabelecidos que combinam múltiplos medicamentos.
  • Terapia-alvo: medicamentos que bloqueiam especificamente as mutações responsáveis pela leucemia — como os inibidores de tirosina-quinase na LMC. Mudam completamente o prognóstico de alguns tipos.
  • Imunoterapia: usa o próprio sistema imunológico do paciente para combater as células leucêmicas. Inclui anticorpos monoclonais e a terapia CAR-T, disponível em centros especializados.
  • Transplante de células-tronco hematopoiéticas: indicado em casos selecionados, substitui a medula óssea doente por células saudáveis de um doador compatível.

A diferença que o tempo faz

Nas leucemias agudas, cada dia conta. A LMA e a LLA podem evoluir em questão de dias para complicações graves — infecções fatais, sangramentos no sistema nervoso, falência de múltiplos órgãos. O tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento é medido em horas, não semanas.

Nas leucemias crônicas, a urgência é outra. A LMC e a LLC permitem um ritmo mais cuidadoso de avaliação. Mas o monitoramento contínuo é indispensável — porque a doença crônica pode transformar, e porque o tratamento precisa ser ajustado conforme a resposta de cada paciente. Um hemograma alterado com leucócitos muito elevados não deve ser ignorado. Investigar logo é o primeiro passo para um desfecho melhor.

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